O lago Titicaca a partir de Puno
O Titicaca, compartilhado entre Peru e Bolívia, fica a cerca de 3.810 metros acima do nível do mar e muitas vezes é descrito como o lago navegável mais alto do mundo. De Puno, na margem peruana, saem quase todas as embarcações rumo às três ilhas mais visitadas deste lado: os Uros, Taquile e Amantaní. Cada uma mostra um jeito diferente de viver no lago, e entender essas diferenças antes de ir muda completamente a experiência.
Boa parte da baía de Puno integra a Reserva Nacional do Titicaca, criada para proteger os totorais e a fauna do lago, entre ela o mergulhão-do-titicaca, uma ave que não voa e só vive ali.
Ilhas Uros: viver sobre a totora
Os Uros são ilhas artificiais construídas por famílias do povo uro com blocos de raízes e camadas de totora, a planta aquática que cresce no lago. É preciso renová-las constantemente, acrescentando totora fresca por cima, porque a de baixo vai apodrecendo com a água. As casas, os barcos tradicionais e boa parte do artesanato também são feitos com essa planta.
Elas ficam a cerca de 20 a 30 minutos de lancha do porto de Puno, então dá para visitá-las em meio dia. As famílias se revezam para receber os visitantes, explicam como constroem e ancoram as ilhas e oferecem um passeio opcional em barco de totora e artesanato. Sim, é uma visita bem turística, e é melhor saber disso de antemão: o turismo é hoje uma das principais fontes de renda dessas famílias, e o jeito de tornar essa relação justa é visitar com interesse real, comprar diretamente e não pechinchar de forma agressiva.
Taquile: a arte têxtil como modo de vida
Taquile fica mais longe, a cerca de 2,5 a 3 horas de lancha tradicional a partir de Puno (menos em lancha rápida). É uma ilha de pedra, terraços agrícolas e caminhos de pedra, habitada por uma comunidade de língua quíchua que mantém uma organização comunitária muito forte.
Sua arte têxtil foi proclamada pela UNESCO Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 2005 e inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial em 2008. Aqui são os homens que tricotam os chullos, os gorros com protetores de orelha, enquanto as mulheres fiam e tecem no tear cintos e outras peças. A roupa transmite informações: a cor e o desenho do chullo, por exemplo, indicam o estado civil ou o cargo de quem o usa. O artesanato é vendido numa loja comunitária junto à praça, uma boa forma de o dinheiro chegar a quem tece.
Chegar à praça principal exige uma subida de uns 30 a 45 minutos por trilhas e escadarias de pedra, a quase 4.000 metros de altitude: vá com calma.
Amantaní: uma noite com uma família
Amantaní é a maior ilha do lado peruano do lago e a melhor opção para passar a noite. As famílias de suas comunidades recebem viajantes em casa, em sistema de rodízio: compartilha-se o jantar (sopa de quinoa, batatas nativas, queijo ou truta, conforme a casa), dorme-se em quartos simples e em algumas noites há uma festa com música em que as famílias emprestam suas roupas tradicionais aos hóspedes. O conforto é básico: pode não haver água quente nem aquecimento, e a eletricidade é limitada.
Ao entardecer costuma-se subir a um dos dois morros sagrados da ilha, Pachatata e Pachamama, com vista para o lago e, em dias limpos, para a Cordilheira Real da Bolívia.
Como organizar a visita
- Meio dia: só os Uros, ideal se você tem pouco tempo em Puno.
- Dia inteiro: Uros e Taquile, com almoço em Taquile. É um dia longo, com muitas horas de lancha.
- Dois dias: Uros, noite em Amantaní e Taquile no dia seguinte. É a forma mais completa e a que permite um contato mais tranquilo com as comunidades.
Ao escolher um guia, pergunte como as visitas são divididas entre as famílias, se a lancha tem coletes salva-vidas para todos e em que idioma serão as explicações. Um guia da região conta a história das ilhas muito melhor do que uma explicação gravada; na seção de cultura local em Puno você encontra propostas de guias locais.
Melhor época e clima
A estação seca, de maio a outubro, traz céu limpo, sol muito forte durante o dia e noites geladas: em junho e julho a temperatura noturna pode ficar abaixo de zero. A estação de chuvas, de dezembro a março, é mais verde e tem menos visitantes, mas também traz tempestades à tarde e um lago mais agitado. Em fevereiro, Puno celebra a Festa da Virgen de la Candelaria, uma das maiores festas do Peru e também patrimônio imaterial da UNESCO: se a sua viagem coincidir, reserve com bastante antecedência.
Altitude e saúde
Puno fica a mais de 3.800 metros. Se você chega do litoral, reserve um ou dois dias para se aclimatar antes do passeio longo: caminhe devagar, beba bastante água, evite álcool na primeira noite e coma leve. Se tiver dor de cabeça forte, náuseas ou falta de ar que não melhoram, procure um médico. O chá de coca ajuda algumas pessoas, mas não substitui a aclimatação.
O que levar
- Roupas em camadas, gorro e luvas para a noite, e um bom agasalho para a lancha.
- Protetor solar de fator alto, óculos de sol e chapéu: nessa altitude a radiação é muito intensa.
- Dinheiro em soles, em notas pequenas: nas ilhas quase não se pode pagar com cartão.
- Uma lanterna, se você for dormir em Amantaní.
- Uma mochila pequena: para a noite em Amantaní basta o essencial.
Visitar com respeito
- Peça licença antes de fotografar as pessoas, especialmente crianças e idosos.
- Não dê doces nem dinheiro às crianças. Se quiser contribuir, compre artesanato ou entregue material escolar à escola ou às autoridades comunitárias.
- Em Amantaní, adapte-se ao ritmo e à comida da casa; uma pequena contribuição para a cozinha (frutas, arroz, óleo) costuma ser bem recebida.
- Aprenda algumas saudações em quíchua ou aimará: elas abrem conversas.
- Não deixe lixo nas ilhas: a gestão de resíduos é complicada no meio do lago.
Na Trekonda você pode falar diretamente com guias locais em Puno, sem comissões, e montar a visita no seu ritmo. Para mais ideias de experiências com as comunidades do lago, veja a seção de turismo cultural em Puno.
Perguntas frequentes
Vale a pena visitar os Uros, mesmo sendo tão turísticos?
Sim, se você for sabendo o que vai encontrar. É um modo de vida único, e ouvir como as ilhas são construídas e mantidas é muito interessante. Combine com Taquile ou Amantaní para conhecer outra realidade do lago.
É preciso pagar entrada nas ilhas?
Sim, as ilhas cobram uma taxa comunitária modesta, separada do transporte. Alguns pacotes a incluem e outros não, então pergunte ao reservar.
Dá para ir por conta própria?
Há lanchas coletivas saindo do porto de Puno, mas com um guia você entende muito mais da história e dos costumes de cada ilha, e a noite em Amantaní fica mais fácil de organizar.
É seguro dormir em Amantaní?
Sim, as famílias recebem visitantes há décadas. As condições são simples, então leve agasalho e uma lanterna.